Algo inexprimível reside no âmago do seu ser e, quem se atreve a defini-lo, pode cometer um grande erro, visto que nem ele próprio tivera a capacidade de fazê-lo, devido à complexidade da sua psique. Na verdade, ele já buscou definições para se sentir mais confortável em sua pele, afinal, é muito mais agradável e suportável a definição, pois ela, por si só, transporta leveza e entendimento. Não obstante, definir o indefinível é uma tarefa fatigante e, talvez, um pouco assustadora, logo aceitar certos aspectos pode trazer-lhe uma tranquilidade à alma.
Ao longo de sua existência, acreditou que sabia exatamente quem era, o que faria com sua vida e o que sentia. Conforme novos anos nasciam, questionamentos surgiam, devido à profundeza do seu espírito, dando espaço à anarquia da alma, da mente e do corpo. Pouco a pouco, as certezas iam se esvaindo afundando-o em um abissal de dúvidas, inquietações e perturbações que, ao que tudo indica, era a que havia vindo ao mundo. Pensar demasiadamente o levou à ruína.
Altamente sensível ao mundo, busca a solidão como forma de reparação aos danos causados pela convivência social que, na verdade, dia após dia, reduz-se a eventos esporádicos concomitantes ao recolhimento à sua insignificância. No fundo, sente que apenas trilha o caminho pelo qual deve transcorrer sua passagem neste mundo e, que tudo mais, desviá-lo-ia da missão a que viera, mesmo ainda não sabendo qual era exatamente. O lusco-fusco de sua alma já durava algum tempo, pois até pouco tempo vivera na luz da ignorância; agora, transmuta-se à vida na escuridão da sua alma.
Apesar das incertezas, estava muito convicto de que o inverno de sua alma o acompanharia todos os anos vindouros, mesmo não sabendo se eram poucos ou muitos. De forma alguma se atemoriza diante do que a vida o reserva, apenas aceita com resignação, visto que a perturbação interior é amplamente mais aceitável que uma possível sociabilidade. A parte mais deleitosa do seu recolhimento em si era a impressionante quantidade de tempo que descobriu possuir para trabalhar o seu eu.
Havia, contudo, um lado muito árduo que era o tédio que o afligia por longos momentos, principalmente quando não estava labutando. Era um tédio tão intenso que nada conseguia retirá-lo dali, tinha a sensação de que o mundo estava repetido. Não experimentava um tédio de alguém normal que, quando se cansa da televisão, passa a conversar com alguém ou sai simplesmente para uma caminhada. Seu tédio o jogava em uma profunda letargia, como se estivesse anestesiado, com consciência do que passava, mas preso a uma força maior que agia pesadamente como a gravidade.
Os profundos momentos de tédio eram como se estivesse ardendo no fogo. Remexia-se física e mentalmente, mas não conseguia lutar. Entregara-se a quem realmente era, um misto de tédio, impaciência, inquietação, incerteza e ansiedade. Ainda assim, por vezes, obtinha um respiro de motivação que era quando tomava um fôlego para lidar com a melancolia de sua alma. Aprendeu em meio a dor e sofrimento que era a única pessoa com quem podia contar e que mesmo se afogando em si, ninguém tinha a capacidade de salvá-lo de si mesmo. Era como que, se um semelhante, ao propor socorro, acaba se queimando nas chamas de sua complexidade. Sabia que quem não conhecia um tédio profundo, não conhecia nem a si mesmo, pois somente o tédio o leva ao inferno da alma.