Há dias em que eu gostaria que alguém me resgatasse de mim mesmo

“A solidão só me dá prazer na medida em que sei que ela é uma escolha. Solidão só dói quando é inevitável.” – Martha Medeiros
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Imagem: Pixabay

Sinto uma solidão quase que inexplicável, justamente pelo fato de ser autista. Mas a questão mais específica é que eu não consigo controlar a minha sinceridade, então, minhas palavras machucam por mais que eu tente suavizá-las. Dessa forma, ninguém consegue tolerar tamanha sinceridade e acabo sempre sozinho. Não faço por maldade, mas eu simplesmente não consigo contar mentirinhas suaves como as pessoas fazem todos os dias, conseguindo assim ter o mínimo de equilíbrio na convivência. Essa falta de papas na língua me coloca em apuros e me faz ser uma pessoa desagradável. Isso me dói muito, pois o preço que pago é uma solidão dolorida.

Por mais que eu tenha grande dificuldades em socializar e goste de conversar sobre assuntos específicos com pessoas especificas, há vezes em que eu gostaria muito de conversar com alguém, mas alguns não querem me ouvir e os outros estão ocupados. É uma vontade gigante de colocar para fora aquilo que me causa uma angústia profunda, deixa-me inquieto e irritado. Uma forma de alívio dessa pressão interior é o que estou fazendo agora, escrever. Sofro muito por saber que há algumas pessoas que gostam de mim, mas não me querem por perto. Não as julgo, pois há dias em que nem eu consigo me suportar.

É difícil explicar às pessoas que quando quero conversar, precisa ser naquele exato momento. Se eu deixar para depois, perco a vontade. Por vezes, envio alguns áudios longos para desabafar que, fossem eles escritor, completariam páginas, mas a pessoa responde com algumas poucas frases curtas depois de um longo tempo. Isso me deixa triste e desanimado. Tenho tentado evitar de enviar mensagem às pessoas, pois comecei a usar a tática de enviar áudios para mim mesmo. Assim, ao verbalizar as minhas inquietações, sinto um certo alívio, mesmo que eu esteja falando sozinho.

A isso, soma-se o fato de que algumas pessoas, refiro-me àquelas poucas próximas, muitas vezes, demorar horas e horas para responder, o que causa muito sofrimento em mim, fazendo-me me sentir mal, pelo fato de estar sendo ignorado e pelo fato de que quando a resposta vir, será curta e evasiva. Sem falar no desejo de me comunicar que já se foi embora há horas.  É muito sofrimento conviver consigo mesmo durante vinte e quatro horas sem alguém para distrair você se si mesmo por alguns momentos. Eis uma das poucas vantagens que acredito que existem ao se conviver.

Este texto não é uma crítica, mas um desabafo para explicar como a minha cabeça funciona e o quanto difícil é ser autista. É querer algo, mas ao mesmo tempo não querer. É querer falar e se calar ao mesmo tempo. É querer compartilhar e reprimir ao mesmo tempo. É um paradoxo todas as horas do dia que me confundem e me impedem de saber o que realmente sinto. Esses dias, são especialmente mais difíceis nos fins de semana, pois chego a passar mais de quarenta e oito horas imerso na minha mente densa e profunda. Durante a semana, meus alunos me salvam de mim mesmo. Porém, hoje, nem eles conseguiram e me encontro submerso em inquietações.

É extremamente difícil conviver consigo mesmo o tempo todo sem alguém que lhe possa resgatar-lhe do seu mundo. Há dias em que eu apenas gostaria que alguém me salvasse de mim para me proporcionar um alívio, mesmo que curto, do peso que é ser quem eu sou. Contudo, entendo que ninguém quer passar o dia com uma pessoa que apenas se interessa por assuntos complicados, densos e perturbadores. Eu não consigo relaxar e ninguém vai querer ser importunado por uma pessoa assim. Há dias em que eu apenas gostaria que alguém me distraísse de mim mesmo, nem que fosse por alguns minutos.

Este texto é um exemplo de sincericídio que estou cometendo ao desnudar a minha alma para o mundo, porém é a única forma de aliviar o que tenho sentido nesta semana, particularmente, hoje. É sofrido, é dolorido, é massacrante! Eu sei que logo mais, após postar isso, vou me arrepender, mas neste momento a pressão é insana, inenarrável. Eu preciso!

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