A vida; Sobre o tempo, a obra e o comentário

“Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os trinta seguintes, o comentário”. – Arthur Schopenhauer
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Imagem: Pixabay

A vida avança rapidamente, fora de nosso controle e nos leva por caminhos pelos quais jamais imaginaríamos quando éramos abarrotados de sonhos e certezas. Mal sabíamos que a mesma vida escancararia diante de nossos olhos, sem piedade, que estávamos errados a respeito de tudo. Além de nos mostrar nossos equívocos, ela passaria a torná-los fantasmas em nossa consciência, os quais sempre rondam nossos pensamentos para garantir que as certezas somente existem quando possuímos pouca experiência neste mundo ou quando temos raso conhecimento da condição humana, raso autoconhecimento e ínfimo conhecimento sobre o próprio mundo.
À medida que finalizamos a escrita de nossa obra e nos aproximamos dos comentários sobre ela*, todas as ‘certezas’, pouco a pouco, esvaem-se como fumaça ao vento. O amadurecimento nos traz discernimento sobre tudo aquilo que conhecemos e de tudo aquilo que está diante de nossos olhos. A nossa perspectiva troca de lugar e, gradualmente, iniciamos uma busca por aquilo que mais nos parece fazer sentido. Os sonhos diminuem, tanto em quantidade quanto em grandeza e a realidade passa a cercear nossos desejos. O tempo começa a se mostrar limitado para todas as atividades que desejamos executar, dentre elas, a mais importante e natural, que é o viver a vida.
Passamos a agir como se o tempo nos fosse limitado, algo com que até então jamais nos preocupávamos. Os afazeres, os desejos, os passatempos e tudo aquilo que nos envolve passa a ser executado com mais cautela. A displicência em relação ao tempo dá lugar à atenção ao detalhe, este pode ser entendido como viver a vida com consciência evitando desperdiçar o bem mais precioso que temos e o qual não pode ser comprado por dinheiro nenhum: o tempo. Refiro-me ao tempo representado pelo tic tac do relógio que, implacavelmente, mostra-nos que somos finitos e para termos paz de espírito, devemos nos voltar àquilo que realmente nos é importante, ou seja, viver com a consciência de que chegará o dia em que não mais ouviremos o som do tempo, pois nossa existência cessará, mas ele continuará.
Essa tomada de consciência em relação à preciosidade do tempo nos assusta, mas, ao mesmo tempo nos liberta, pois possibilita uma nova fase em nossas vidas em que todas as nossas escolhas serão realizadas com mais sabedoria, pois prezaremos pela qualidade daquilo que escolhemos. O ego, a vaidade e a avareza cedem espaço ao aprofundamento de nossos reais desejos, sem ressalvas. Deixamos em segundo plano as preocupações sobre o que irão pensar, sobre o quanto atraentes estamos ou sobre quanto dinheiro iremos acumular. Essas futilidades caem por terra, esvaindo-se como fumaça ao vento.
Nesse novo tempo, resta-nos aproveitar a vida que nos resta. Ela pode ser ainda longa, se tivermos sorte. Caso não tenhamos tanta sorte, pelo menos aproveitaremos enquanto aqui estivermos. Alguns viajarão mais, passarão mais tempo com família e amigos, farão aquilo de que tanto gostam; outros se voltarão para dentro de si em busca daquilo que acende uma chama de vida, esses podem iniciar um novo passatempo, largar aquele trabalho de que não gostam e ir atrás daquele que sempre desejaram, por exemplo. Outrem irão em busca de algo distante, algo transformador a ponto de não poder ser explicado, aquilo que somente eles mesmos conseguem entender. O que, de verdade, importa é o fato de que a vida passa rapidamente, sendo ela consciente ou inconsciente e jamais poderemos retornar a algum momento passado, somente recordá-lo em nossas memórias. Oxalá não tenhamos demência.

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* A frase exata, do filósofo Arthur Schopenhauer, é: “Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os trinta seguintes, o comentário”. Essa reflexão aparece em sua obra Parerga e Paralipomena (1851), uma coleção de ensaios filosóficos, e traduz a visão do autor sobre a maturidade e o envelhecimento. O Texto (até os 40 anos): É a fase da ação, das decisões impetuosas, escolhas de carreira, estudos, amores e erros. É quando a “obra” (nossa vida real) é escrita, muitas vezes de forma caótica ou automática. O Comentário (após os 40 anos): É o período de compreensão e sabedoria. Com a perspectiva do tempo, a pessoa relê sua própria história, identificando padrões, consequências e o verdadeiro sentido do que viveu.

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