Quatro casais de amigos – Clair Ines Feldmann Tressi e Valmir Antonio Tressi; Guacira de Ávila Javornik e Enio Davi Javornik; Luciana Schillo e Lindomar Gilberto Paliga; Silvana Pertile e Carlos Alberto Pertile –, decidiram transformar um sonho antigo em realidade: viajar de caminhonete do Brasil até Machu Picchu, no Peru. Para dar início à aventura, criaram um grupo de WhatsApp batizado de “Simpáticos no Peru”, nome que simboliza a alegria, a simpatia e o espírito acolhedor que os brasileiros levam consigo por onde passam.
A jornada começou muito antes da estrada. Foram meses de planejamento, com definição de rotas, organização de documentos dos veículos, autorizações para dirigir no exterior, passaportes, planejamento de datas de saída e retorno, além da preparação de itens indispensáveis como água, medicamentos, combustível e um verdadeiro “kit de sobrevivência” alimentar.
A saída foi marcada para o dia 26 de dezembro de 2025, logo após as comemorações de Natal em família. O retorno estava previsto para 11 de janeiro de 2026, com a virada de ano programada para acontecer em Copacabana, na Bolívia.
O início da estrada

Na madrugada do dia 26, às 5h, o grupo se reuniu para uma oração, pedindo proteção e bênçãos para que a viagem transcorresse com segurança. A primeira parada, ainda em solo brasileiro, foi em Boa Vista do Buricá, onde foram recebidos com um café da manhã especial pela família da agente de viagem que acompanhava o grupo (ClairTur).
De lá, seguiram para Porto Mauá, cruzando a fronteira com a Argentina. A primeira noite foi em Corrientes, e a segunda grande parada ocorreu em General Güemes, já com paisagens que anunciavam a grandiosidade do percurso: montanhas, nuvens baixas e cenários que exigiam paradas frequentes para fotos e registros inesquecíveis.
O primeiro passeio turístico aconteceu na charmosa vila de Purmamarca, na província de Jujuy, famosa pelas montanhas coloridas que encantaram o grupo.
Bolívia: o impacto do Salar de Uyuni
Após a saída da Argentina e a entrada na Bolívia, o grupo chegou a Uyuni, onde realizou um dos passeios mais aguardados: o Salar de Uyuni. Um dia difícil de traduzir em palavras. Aquilo que antes era visto apenas em imagens da internet estava ali, diante dos olhos, transformando sonho em vivência real.
Entre fotos, vídeos e muitas risadas, os viajantes viveram momentos únicos, incluindo um almoço improvável e memorável no meio do deserto de sal. Os guias montaram uma mesa completa, com toalha, pratos e talheres, transformando uma refeição simples em um verdadeiro banquete em meio à imensidão branca.

Ao final da tarde, com botas de borracha nos pés, o grupo seguiu para a área do salar coberta por água, aguardando o pôr do sol. O encontro entre céu e terra criou imagens que confundiam realidade e reflexo, um espetáculo impossível de ser plenamente descrito.
Após essa experiência, o grupo seguiu para Tupiza, onde viveu momentos de descontração andando de tuk-tuk, veículo típico da região.
Réveillon em Copacabana e chegada ao Peru
Às vésperas do Ano-Novo, os viajantes chegaram a Copacabana, na Bolívia, onde celebraram o réveillon. O brinde da virada foi marcado por alegria, gratidão pela vida, pela amizade e lembranças carinhosas das famílias que ficaram no Brasil. A celebração ocorreu às 23h no horário boliviano, correspondente à meia-noite no Brasil.
Na sequência, o grupo se despediu da Bolívia e entrou no Peru, onde novos desafios os aguardavam. Em Puno, a primeira cidade peruana do roteiro, enfrentaram os efeitos da altitude. A presença de cilindros de oxigênio nos hotéis trouxe certo receio, mas também consciência da necessidade de desacelerar, respirar fundo e respeitar os limites do corpo.
Em Puno, visitaram o Lago Titicaca e as Ilhas Flutuantes, conhecendo de perto a cultura e o modo de vida das famílias locais.
Cusco, Ollantaytambo e o grande objetivo
Seguindo viagem, o grupo chegou a Cusco, onde realizou um city tour, registrando a arquitetura, os morros, as tradições, o artesanato e as crenças religiosas da região.Com mochilas nas costas e um pequeno kit de sobrevivência, partiram rumo ao grande objetivo: Machu Picchu. A viagem de van até Ollantaytambo foi marcada pela visita ao Vale Sagrado e, já na chegada, pelo impressionante sítio arqueológico de Ollantaytambo, onde novamente enfrentaram os desafios da altitude.
Ao final do dia, em um passeio de trem a cerca de 20 km por hora, cruzando a mata e acompanhando um rio caudaloso e barulhento, chegaram a Águas Calientes. Ali, hospedaram-se em um simpático hotel à margem do rio que corta a cidade.
Na manhã seguinte, embarcaram em um micro-ônibus e seguiram montanha acima até a entrada da cidade perdida dos Incas, localizada no topo de uma montanha, a 2400m de altitude no Peru. O sonho estava se concretizando. A visita foi acompanhada por uma verdadeira aula de história, que transportou o grupo à época dos Incas, com destaque para a trajetória de Pachacuti, líder responsável pela expansão do império e pela construção da cidade sagrada.

Uma viagem que foi muito além do turismo
Mais do que turismo, a viagem se transformou em aprendizado. Houve “aulas” de matemática com conversão de moedas, compra, venda e negociação de lembranças; lições de geografia com montanhas coloridas, solos e minerais; aprendizados de história e cultura; e momentos de ciência ao observar alpacas, lhamas e flamingos ao longo do caminho.
Também enfrentamos diversos desafios físicos, como dores de barriga, enjoo, falta de ar, sangramentos nasais e os efeitos da altitude. Somaram-se a isso as dificuldades para conseguir combustível adequado ao motor da caminhonete, já que, na Bolívia, a venda de combustível para estrangeiros não é permitida. Em alguns momentos, a busca incessante por banheiros também se tornou um desafio, despertando em nós a saudade de casa e do nosso país. Foram dois dias viajando no deserto entre inúmeros mistérios e belezas, muitas vezes a mais de 4 mil metros acima do nível do mar.
O retorno e o verdadeiro significado de lar

Na volta, a saudade já começava a apertar. Em um dos momentos finais da estrada, ao tocar uma música gaúcha no som da caminhonete, o grupo explodiu em risadas, gritos e emoção. Era a certeza de que realizar um sonho também significa poder voltar para casa, para as tradições, os costumes e o aconchego da família.
Em uma parada na Argentina, um quase erro de caminho — que apontava para o sentido contrário — arrancou gargalhadas e o coro espontâneo: “Queremos ir pra casa!”
A chegada foi marcada por uma parada especial na Paróquia São Cristóvão, onde agradeceram ao padroeiro dos motoristas pela proteção durante toda a viagem. Logo depois, o reencontro com os familiares, que surgiram para surpreendê-los, misturou abraços, risos e lágrimas.

Uma experiência impossível de resumir
É impossível descrever em poucas páginas tudo o que foi vivido. A viagem ensinou que a felicidade não está apenas nos destinos famosos, mas na companhia de quem se ama, nos sonhos compartilhados e na certeza de que, por mais longe que se vá, o nosso lar também é o nosso Machu Picchu.
E você? Também pode viver essa experiência — e se emocionar.
Por Guacira de Ávila Javornik