Desde crianças, somos ensinados a olhar ao exterior e de lá, buscar tudo aquilo que se acredita trazer satisfação e preencher o nosso vazio interior. Somos guiados a encontrar as mais variadas formas de entretenimento para nos livrarmos da angústia que povoa a alma humana. Alguns passam longas horas em frente às telas; outros frequentemente vão a festas; muitos comem e bebem demasiadamente; outrem buscam, incessantemente, a companhia de alguém e, assim muitos vivem em busca de algo fora de si mesmos. Elevados são aqueles que passam a buscar as formas de entretenimento dentro de si mesmos, a investigar o seu interior, a cultivar o seu jardim com as suas próprias borboletas.
Não se trata aqui de julgar as pessoas e fazê-las se sentir mal por suas formas de entreter-se, mas sim de buscar entender o erro primário que cometemos ao, desde pequenos, esquecer que a vida vem de dentro de nós e que no mesmo lugar, podemos encontrar tudo aquilo que pode contribuir para a nossa felicidade. Não seriamos muito mais felizes se a busca por algo fora de nós fosse uma mera escolha, ao invés de uma necessidade? Toda a fonte de gozo exterior é frágil e temporária, uma vez que se esgota, o tédio se instala e se vai em busca de outra. Como diz o filósofo Arthur Schopenhauer, o que um homem é em si mesmo, o que lhe acompanha na solidão de sua miséria, é mais essencial para ele que todo o ouro do mundo.
O que se entende aqui é que tudo aquilo que realmente importa ao homem, está dentro de si, nos próprios pensamentos e na imaginação. Portanto, buscar fontes externas de felicidade é atitude de um ser limitado que objetiva escapar do tédio que lhe aflige. Sócrates disse, ao admirar objetos de luxo expostos à venda: “Quantas coisas existem de que eu não necessito.” Assim, a condição essencial para sermos felizes em nossa vida é aquilo que realmente somos, ou seja, a nossa própria personalidade. A grande questão é que voltar-se para dentro de si quando se é ensinado a entretenimentos exógenos, é uma tarefa amplamente laboriosa que exige um profundo querer.
Lamentavelmente, poucos estão dispostos a realizar o caminho inverso que é abandonar os recursos externos e cultivar os internos. Quando se está disposto a fazê-lo é preciso ponderar, pois uma vida voltada ao interior, significa ausência do exterior, logicamente. Isso quer dizer que, com o tempo, você passa a prescindir do convívio social, deixando de ir ao cinema, a festas, a compromissos sociais, abandona muitas pessoas que convivem com você e se isola consideravelmente. Obviamente que é impossível viver isolado do mundo, mas o que se entende aqui é que sua necessidade de felicidade externa passa a ser quase nula.
Com isso, é compreensível que grande parte das pessoas tem receio em iniciar uma jornada para o seu interior, pois amam as fontes externas de prazer e não estão dispostas a enfrentar um caminho ardiloso e escuro em busca de quem realmente são. Viver do seu interior é um grande desafio, pois os momentos de solidão e tédio também afligem a um dedicado a si mesmo. Contudo, em tais momentos, é possível testar a sua força e real disposição de isolar-se em sua própria casca. Esteja, igualmente, preparado para a incompreensão das pessoas ao seu redor, pois cultivar o seu jardim interior ainda é altamente visto como sinal de egoísmo, rebeldia e desdém em relação e tudo e todos. Confesso que eu escolhi esse caminho e, por mais difícil que tenha sido e ainda o é, considero uma jornada libertadora que tem me mostrado a beleza de ser quem em literalmente sou. Com ressalvas, àqueles que desejam trilhar esse caminho, advirto-lhes que se preparem para uma jornada sem volta, mas que o leva à sua essência, a qual é brutalmente extirpada quando se vive de fontes externas de felicidade.