À solidão, dispensamos as mais severas críticas, pois somos incapazes de viver sós. Dela, fugimos de todas as formas possíveis, muitas vezes, colocamo-nos em perigo, vivendo com pessoas que nos agridem. Preferimos o maltrato à solidão. Refugiamo-nos nos braços da vida, longe de qualquer aspecto que possa nos levar ao caminho dos solitários. Crescemos aprendendo que ficar só é equivalente à morte, à nulidade, à infelicidade, à loucura, ao desamparo e ao infortúnio.
Até certa altura, existe muita verdade nisso, pois não ter com quem compartilhar a sua vida, com quem contar, em quem se amparar, nem mesmo alguém para compartilhar sua felicidade, suas conquistas e seus sucessos, é duro. Isso é exacerbado quando uma pessoa é impelida a uma vida solitária, seja pela sua forma de pensar ou pelas suas preferências. Entre escolher ser solitário e ser jogado à solidão, há uma brutal diferença.
Viver só exige muita maturidade emocional e contemplação do autoconhecimento. Conquistar algo e não ter com quem compartilhar, deitar-se sem esperar uma mensagem, acordar sem um bom dia, sair a um restaurante sozinho, requerer uma opinião ou um ombro em que se apoiar, e sempre ser lembrado de que não se tem ninguém por perto, parece-me uma grande demonstração da força necessária para seguir pela vida sem se entregar aos vícios e sucumbir.
Suportar a si mesmo quando você é uma pessoa complicada de se entender e de se conviver; olhar-se todos os dias no espelho e saber que não pode esperar nada de ninguém; trilhar um caminho por onde seus passos o guiam em uma direção desconhecida; buscar em si mesmo aquilo tudo que precisa para se construir… são alguns dos grandes desafios dos solitários diante dos quais, muitos desistem caindo em um vazio existencial do qual é difícil se reerguer.
Passar a vida só, sem momentos de distração de si, é uma tarefa árdua, pois há aqueles dias em que nos bastaria ouvir um pouco do outro, falar sobre o outro, jogar conversa fora, ver algo diferente do habitual, ou seja, tirar o foco de si mesmo. Ao contrário do que muitos pensam, o solitário não deseja um foco permanente sobre si, mas, vez por outra, deseja uma distração para aliviar o peso de sua própria existência.
É atordoante quando nada, absolutamente nada, nem aquilo que mais ama, consegue retirá-lo do tédio que atinge ao solitário, com certa frequência. Nem os filmes, músicas, livros, viagens, pessoas, internet, passeios…nada disso alivia a existência, pois você está tão desiludido pela vida e tão sufocado pela solidão que não percebe formas para sair desse mar de lama. É árduo ser tão diferente e se sentir tão desajustado em um mundo em que as relações humanas são consideradas essenciais, pois somos seres sociais, como dizem os estudiosos.
Há dias em que apenas gostaria de ser alguém ‘normal’, de ser capaz de me sentar em frente à televisão e distrair minha mente com um filme, série ou um programa qualquer. Há dias em que gostaria de me encontrar com um grupo de amigos, beber e falar sobre as mais variadas inutilidades da vida, passar tempo sem a obsessão em ser produtivo, sem culpa por estar fazendo nada, sem a tortura psicológica de estar perdendo tempo com futilidades. Só gostaria de não me sentir tão culpado por tantos aspectos que eu nem sei como expressar e nem o que exatamente são. Acredite-me, ser alguém como eu não é tarefa fácil e tem me deixado esgotado.