Crescemos rodeados de pessoas e com elas, aprendemos um pouco de tudo. Alguns nos ensinam a respeitar; alguns, a maldizer; alguns, a odiar a si mesmo; alguns, a ser egoísta e rancoroso; alguns, a prejudicar; alguns, a não se importar; alguns, a chorar; alguns, a se depreciar; alguns, a detestar; alguns, a amar; alguns, a ver o lado bom da vida; alguns, a não ser como eles; alguns, a preferir a solidão; alguns, a buscar a felicidade externa; alguns, a ser medíocre; outros tantos, a entender que todos que estão ao nosso redor, irão, cedo ou tarde, decepcionar-nos ou puxar o nosso tapete. Nem a sua família é garantia de que você será amado ou, pelo menos, será lembrado. A vida é assim, alegre para poucos, cansativa para muitos e insuportável para alguns outros.
A minha visão de mundo é a mais pessimista possível e este texto que escrevo, assim como todos os outros que já publiquei, são inspirados pelos sentimentos que as pessoas causaram em mim ao longo de minha vida, na sua maioria, repulsivos. Confesso que, na maior parte, são sentimentos tão ruins a ponto de ser a solidão a minha maior companheira e a amiga que nunca me abandona. As pessoas com quem convivi me ensinaram que o isolamento, por mais prejudicial que seja, é o meu melhor refúgio contra o mal que me causaram e que não devo nem confiar em mim, pois posso ser meu maior inimigo. Como dizia o filósofo Thomas Hobbes, o homem é o lobo do homem, ou seja, o homem é o seu próprio inimigo, provoca lutas sangrentas e destrói seus semelhantes.
Tenha tido você a sorte de haver crescido em um ambiente adequado e ‘normal’, nos moldes psicológicos, tão mais propenso está a pensar o oposto do que eu expresso aqui. Tenha tido você o infortúnio de haver crescido em um ambiente disfuncional, onde se desenvolveu como certas árvores, nas quais acreditava-se que quanto mais se bate, mais crescem e produzem, tão mais disposto estaria a assentir. Bater, aqui, utilizo no sentido literal e figurado. No literal, de haver recebido violência em nome do amor e, no figurado, de haver sido, constantemente, alvo de piadas depreciativas. Todos esses ingredientes levaram-me ao resultado do qual desfruto. Por um tempo, acreditava que havia perdoado a humanidade pelos seus feitos, hoje, julgo-a culpada de todas as mazelas causadas pela praga humana.
Não busco olhares de pesar pela minha sufocante existência, mas livrar-me dos meus sentimentos misantropos. Na verdade, viver com eles, pois extirpá-los de dentro de mim, unicamente seria possível com o cessar da minha consciência, leia-se, morte. Perdoar? Já perdoei todos, pois, caso contrário, não haveria chegado até aqui. O que sinto não ser capaz de fazer é esquecer. Não remoo o passado, tampouco, tenho amnesia. Tenho ojeriza à condição humana que, podendo edificar, prefere implodir a inocência de uma criança desde o primeiro dia que chega a este mundo. Mas não com certeza, caso eu pudesse escolher em que mundo nascer, indubitavelmente, não seria aquele a que pertenci.
Consoante à minha existência, há tantas outras que padecem da mesma desilusão humana. Sobre aquilo que posso afirmar, acredito – palavra sem muito sentido esta -, que muitas almas ainda ficarão no caminho, outras, vagarão pela Terra em busca de algum alento. Estarão sempre acompanhadas de desilusões, vestindo tons neutros em busca de algum lugar onde possam descansar, seja momentânea ou eternamente. Aos que leem escritos como esse, certamente o fazem por compartilhar de muitos pontos aqui descritos, senão, todos. O que resta às almas ditas aturdidas pelos ditos normais, é buscar viver de uma forma que não causem mal a terceiros, evitando assim, ser como eles que, habitual e habilmente, destroçaram-nos. Por mais perturbados que possamos ser considerados, não seremos maus, pois sabemos o peso da maldade e da negligência.