Acredito que uma das maiores fontes da infelicidade humana se dá quando os nossos olhos não encontram em nós mesmos aquele padrão de beleza que acreditamos ser o ideal. Isso é uma grande crueldade que um ser humano pode cometer, pois se esquece que nem tudo gravita ao redor da dita boa aparência, a qual, com frequência, esmagadoramente, destrói toda a vivacidade da alma, definhando a nossa essência.
Sentar-se em frete a um espelho e, com profundidade, encarar o que se vê é, constantemente, uma tarefa funesta. Gostar do que se lhe apresenta diante dos seus olhos pode não ser muito fácil, pois, aceitar as imperfeições à vista parece um grande desafio. Comumente, olhamo-nos, mas rechaçamos a nós mesmos pela forma que somos e, por mais que aparentemos uma perfeição advinda da natureza, raros são aqueles que realmente a admiram entoando simpatia pelas feições corporais e faciais.
Igualmente raros são aqueles que acreditam que a beleza está nos olhos de quem vê, pois aquilo a que olhamos, pode possuir uma beleza que não pode ser identificada por todos os olhares. Portanto, estes acabam definindo-a como não agradável aos olhos seus, supondo que, da mesma forma, seja-no a todos que a observam. Furtam-se da verdadeira beleza aqueles que não a veem em todos os lugares, pois o belo é uma questão de opinião.
Atormentados pelos dizeres publicitários e julgamentos alheios, partimos em busca de um padrão de beleza que somente existe do outro lado do sofrimento e da dor. São dietas mirabolantes, quantias financeiras faraônicas e uma concentração exponencial para reconstruir a tal da imagem que aparece no espelho. Aborrecimentos e inquietações permeiam o caminho ao reflexo perfeito que, deveras, jamais será alcançado, pois se há algo em que o ser humano é nitidamente competente, é na insatisfação.
Assim, passamos a melhor fase de nossas vidas em busca de algo que não deveria ser desejado, pois se a natureza nos fez assim, razão nenhuma teríamos para desejá-lo de outra forma. Aparentemente, o que importa à maioria é a casca, pois preocupamo-nos excessivamente com a exterioridade e insuficientemente com a interioridade. Tal questão, acentua-se com o desenrolar da história, justamente pelo fato de mais preocupados estarmos com a aparência que com o conteúdo. Somos Narcisos apaixonados pela beleza que, cedo ou tarde, desaparecerá junto conosco.
Quiçá, um dia percebamos que a insatisfação vem de dentro de nossas próprias mentes que são controladas pelos nossos pensamentos asquerosos que brotam da incongruência de nossa relação corpo-mente. Enquanto estamos ansiosos desejando aquilo que cremos ser o ideal, esquecemos de apreciar a nossa beleza que, de uma forma ou outra, faz parte da nossa essência. Quem sabe, seria mais apropriado abraçarmos quem somos do que empreendermos uma fuga que, inevitavelmente, lavar-nos-á ao nosso próprio encontro, cedo ou trade. Por mais que modifiquemos o nosso reflexo, não podemos apagar aquilo que realmente somos ou fomos.
Tenho a convicção que devemos empreender uma viagem ao nosso interior e observar, mais atenciosamente, o que está além do que os olhos podem ver e termos o cuidado para que não nos olhemos com olhos de terceiros, pois, muitas vezes, a insatisfação que acreditamos ter com nossa aparência, nada mais é do que a opinião alheia impregnada em nossa mente. Lembremos de que belo é tudo quanto agrada desinteressadamente, como dizia o filosofo Immanuel Kant.