O seu preconceito e sua ignorância podem matar

“O autismo não se cura, se compreende.” (Desconhecido)

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Ao autistas, os desafios são inerentes à existência, não importando o nível de suporte. Por mais que um autista de nível de suporte 1, que é o meu caso, não “ter cara de autista”, posso garantir que os desafios invisíveis são muito, mas muito difíceis, pois, no fim das contas, tudo leva à exaustão, ao cansaço intenso. Não bastasse isso, ainda ouço a clássica pergunta, em tom de deboche: Você está exausto, mas por quê? A pergunta, ao ser feita sem tom de agressividade e deboche, estimula o autista a conversar, pois a pessoa se mostra aberta a entender. Quando é em tom de deboche, automaticamente faz o autista se sentir muito mal, fazendo-o se fechar. Então, vem outra agressão: não pode falar nada, pois se emburra por qualquer coisa.

Cheguei à conclusão, aos meus 37 anos que existe uma, duas ou, com muita sorte, três pessoas próximas que tem empatia o suficiente para buscar aprender a conviver com um autista. As outras pessoas próximas passam a vida buscando agredir verbalmente, jamais demonstrando alguma empatia e, o pior de tudo, é que se irritam acreditando que o autista quer se achar diferente, ser especial. As pessoas não aceitam que existem deficiências invisíveis. Simplesmente, para elas, se sua deficiência não está aparente – como ser cadeirante, falta de algum membro ou traços visíveis como a síndrome de Tourette ou Down, – uma pessoa, como o autista, não tem o direito de ser quem é, pois, seu autismo não á aparente.

É infinitamente mais dolorido quando essa violência velada ou não, consciente ou não, vem de pessoas próximas, seja de pessoas da família, trabalho ou convívio. Tal violência não se expressa somente pelo que é dito ou pelas atitudes, mas se expressa pelo abandono, isolamento imposto, pela não aceitação, pela falta de apoio, busca de entendimento, falta de compreensão, pelas brincadeiras agressivas. São tantas formas de violência que é difícil descrever todas. Mas, sobretudo, dói quando as pessoas com quem eu me importo, tentam ignorar a minha condição como autista, buscando amenizar o espectro por meio de falas totalmente impensadas e insensíveis. Isso tudo que escrevo aqui, tenho a plena convicção de que existem muitas outras pessoas que sofrem exatamente da mesma forma até o dia em que decidem acabar com esse sofrimento.

O que falta às pessoas é educação, no sentido de conhecimento. Pois do conhecimento, pode nascer a empatia. Da empatia, pode nascer a aceitação. Da aceitação, pode nascer o amor. Do amor, pode nascer uma semente de esperança no coração de um autista fazendo-o se sentir querido. A grande questão, que eu sempre pontuo é que pouquíssimas pessoas estão dispostas a isso e compreendo, pois, para conviver com um autista, você precisa entrar no mundo que ele criou para viver. Mas que mundo é esse? É um mundo onde ele cria suas regras, seu modo de pensar, de agir e de amenizar o sofrimento que o mundo exterior lhe causa. É somente neste mundo que o autista consegue ‘viver em paz’, contudo o custo pode ser alto, pois é um mundo distante, isolado e difícil de adentrar.

Depois de ler tudo isso, você pode decidir se acolhe um autista na sua família, no trabalho ou na amizade, entrando no mundo dele. Se optar por não fazê-lo, só peço que não o maltrate, não seja a pessoa que o faça se sentir mal, que o faça se isolar mais ainda, sentir-se mais culpado, solitário e desprezado. Nós, autistas, acabamos nos isolando devido à essa violência diária imposta pelo mundo, o qual apenas ‘respeita’ aquilo que está dentro dos ‘padrões’ e finge que inclui. Tenha um mínimo de respeito e empatia, pois cada um tem suas batalhas para lutar, todos somos humanos da mesma forma e merecemos ser acolhidos.

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