“Você é muito normal e nem cara de autista tem”

Os autistas guardam tesouros inalcançáveis à maioria das pessoas pelo grande preconceito que enfrentam

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A maior demonstração de carinho a uma pessoa que possui algum transtorno mental ou deficiência física é acolhimento com sensibilidade à causa. No entanto, no mundo atual, grande parte das pessoas finge que acolhe e respeita. Elas o fazem pelo fato de que fica “feio” tratar o “diferente” com displicência e demérito pela sua condição. Assim, temos um ambiente em que muitos fingem, outros tanto realmente nem se importam com a condição alheia, restando alguns poucos neurotípicos que possuem uma sensibilidade nata, assim, verdadeiramente acolhendo o “diferente”.

Refiro-me, principalmente às pessoas com o TEA (Transtorno do Espectro Autista), condição que dificulta a convivência e crescimento profissional da maioria dos autistas. Felizmente, o assunto tem sido amplamente debatido nos últimos anos objetivando a quebra de preconceitos e construção de políticas públicas para essas pessoas. Porém, o aumento da discussão tem mostrado o quando se precisa avançar para uma sociedade mais acolhedora, tantos para autistas, como para todas as outras “minorias”.

Uma das questões mais presentes na minha vida é o fato de que eu “não tenho cara de autista” e me “comporto bem em sociedade”. Essas visões desinformadas fazem parte de uma realidade deturpada na qual as pessoas ainda acreditam que transtornos e deficiências só existem quando pode ser, de alguma forma, vistas, seja na maneira de falar, caminhar ou mesmo na falta de algum membro do corpo ou a própria má formação congênita. Assim, a maioria das pessoas pensam que não é possível ser, caso não pareça.

Uma das possíveis explicações sobre eu “não parecer autista” é que durante a minha vida toda – hoje tenho 36 anos –, eu tive que aprender a viver como um neurotípico, até pelo fato de nem eu saber que tinha tal condição, muito menos saber que existia o autismo. Assim, eu necessitei mascarar as minhas dificuldades para performar de forma aceitável socialmente, o que chamam de masking, que significa mascarar. Neste tempo todo, eu sentia que algo muito incômodo vivia dentro de mim, o que me causava muito desconforto e sofrimento por ter que agir e mostrar que eu era quem eu realmente não era. Basicamente, eu atuei por mais de três décadas da minha vida. Sou um ator nato. Aprendi a fingir com excelência.

Além do mais, essa necessidade de me encaixar em sociedade para sobreviver, fez com que, mesmo sempre envolto em grande ansiedade social e dificuldade de comunicação, eu encontrasse uma forma de crescer profissionalmente. Pois, além da pressão social, exista imensa pressão interna que me obrigava a “ser igual aos outros”, por medo do que eles iriam dizer. Eu sentia enorme vergonha e medos inexplicáveis de parecer “diferente” dos outros. Assim, minhas energias sempre se concentravam em “parecer normal”, convivendo em sociedade e trabalhando.

O fato de eu ter me desenvolvido profissionalmente com sucesso, fez-me ficar chocado, na última sexta-feira, quando vi uma estatística do IBGE, afirmando que, aproximadamente, 85% da população autista está desempregada no Brasil. Soma-se outro fato importante aqui. Nos últimos meses, eu tive muitos contatos profissionais e com público, devido aos lançamentos dos meus livros. Em algumas ocasiões, pessoas se surpreendiam ao saber que eu sou autista, pois diziam que eu “me viro muito bem em público e jamais imaginariam que eu tenho tal condição”. Isso me fez pensar no quanto bem eu aprendi a fingir e performar na sociedade para “parecer normal”, a ponto de “parecer normal mesmo”.

Isso é apenas um recorte da minha realidade como autista que “surpreende e espanta as pessoas” quando elas sabem da minha realidade.  Felizmente, por algumas razões, eu “dei certo” na vida, mesmo com imensas dificuldades de socialização, comunicação e trejeitos. Atualmente, as dificuldades continuam, mas por muita força e necessidade de sobrevivência, encontrei formas de me moldar à sociedade para conviver de maneira em que eu possa sentir algum conforto com a questão. Há tanto dentro de mim para explorar e comunicar sobre o autismo. Termino este texto apenas pedindo às pessoas que acolham o “diferente e caso não consigam fazê-lo por sensibilidade nata e sinceridade, que possam fingir, pois felizmente ou infelizmente, muitos autistas têm tão pouco que se contentam até quando são falsamente aceitos. Isso é uma questão de sobrevivência, não é uma vergonha.

Conheça V.I.X.I. Códigos de Praga, livro de minha autoria e Quando a Infância Dói – Vol. 2, de minha coautoria.

Foto: Aline Rudysink
Foto: Giovanna Velozo
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