Quando a solidão é um paraíso

“A solidão é o paraíso do autista.” – Cássio Felipe

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Imagem: Pixabay

Você conhece alguém que sente prazer em ficar sozinho? Essas são pessoas difíceis de serem encontradas ou pelo fato de serem poucas ou por esconderem esse gosto, pois se você está sozinho em um restaurante, bar ou no parque, você é malvisto, como diz o escritor Fabrício Carpinejar. Isso se deve ao fato de que existe um estigma enraizado na sociedade que nos leva ao engano fazendo-nos pensar que somente se é feliz e se sente bem quando se está acompanhando. Ora bolas, isso é uma falácia que nos é concretada em nossas mentes desde pequeninos.

É comum encontrar pessoas que julgam um ‘solitário’ como triste, depressivo, coitado, um verdadeiro doente. Basta observar e notar que sentimos pena ao ver alguém sozinho, perguntando-nos o que há de errado com aquela pessoa. Ao contrário, quando vemos alguém rodeado de pessoas, assumimos que ali é onde está a felicidade. Esse julgamento é tão comum que até eu que sou amante da solidão e do silêncio estando quase sempre só, ao ver alguém também sozinho, pergunto-me o que pode estar acontecendo com aquela pessoa. É um trabalho árduo tomar consciência e se livrar desse julgamento.

Muito se fala sobre o fato de a solidão ser nociva, tanto que há países que têm criado esferas de governo com o objetivo de combatê-la, pois se acredita que ela é extremamente prejudicial. Logicamente, que a solidão involuntária pode ser realmente muito perigosa à saúde humana e é esse aspecto que está sendo enfrentado. Contudo, muitas pessoas ainda não entendem que, por outro lado, alguns têm prazer em ficar só. Essa é exatamente a forma mais satisfatória que habita em mim, o que ‘assusta’ as pessoas. O mais importante de tudo é que é uma solidão voluntária.

Eu, como autista de nível de suporte um, já me senti muito solitário e triste pelo fato de ter poucas pessoas ao meu redor. Porém, ao longo do tempo, fui aprendendo, por meio da filosofia e leitura de livros em geral, a encontrar prazer e, ficar só. Acredito que é da solidão que nascem as grandes ideias, pelo menos é o que acontece comigo. Grandes ideias para mudar a vida, hábitos, olhar mais para dentro de si, colocar-se em primeiro lugar, ir atrás dos próprios sonhos e cuidar de si são alguns dos exemplos das mudanças que a solidão proporciona. Isso, sem mencionar o campo profissional que é para onde são levadas muitas ideias concebidas durante momentos de solidão. Esse é exatamente o caso do meu livro V.I.X.I. Códigos de Praga, o qual nasceu das dores e dos prazeres da solidão em que vivo. Este é o primeiro livro de uma trilogia, toda ela concebida na mais alta solidão.

Com o amadurecimento, perdi o medo de ser mal interpretado ao dizer que amo ficar sozinho e que prefiro fazer quase tudo sozinho. Antes, um dos meus temores era se alguém percebesse a minha solidão, portanto, eu a escondia de todas as formas possíveis e, por não a entender, eu me torturava todos os dias, fosse para escondê-la ou tentar me livrar desse meu lado ‘obscuro’. Como era algo que estava dentro de mim desde o dia em que nasci, não pude escapar. Então, acabei me entregando e assumindo, com prazer, o fato de eu ser um solitário.

Quem não gosta de solidão, não tem a capacidade de compreender o quanto ela pode fazer bem, especialmente quando suas habilidades sociais são pífias somando-se a sua alta sensibilidade sensorial e outras questões do universo autista. Isso é um casamento perfeito que gera um filho chamado solidão, o qual não é aceito logo de início, mas amado assim que se descobre quem ele realmente é. Não há paz maior que ficar em casa no fim de semana sem ligações, ruídos, pessoas falado de suas vidas patéticas ou sem contato com o mundo exterior. A solidão é o paraíso do autista, pelo menos para mim. Eu jamais a trocaria pelo que fosse, exceto, pelo meu grande hiperfoco, viagens.

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