Como dizia o filósofo romeno, Emil Cioran, a insônia é uma lucidez vertiginosa que pode converter o paraíso numa câmara de tortura, mas na minha condição é a lucidez que converte muitos dos meus dias em uma câmara de tortura. Por vezes, sinto-me em uma aura tão insuportável que somente a demência ser-me-ia a condição para me manter nesta vida, pois a minha consciência me enlouquece paulatinamente. Sinto um inferno dentro de mim que arde roubando toda a minha paz e a vontade de viver. É uma guerra que eu declaro contra mim mesmo, pois sou o meu aliado e o meu próprio inimigo.
Sou tão paradoxal que há dias que não me reconheço. É como se fosse um estranho dentro de mim que não sabe como se relacionar consigo mesmo e afugenta qualquer possibilidade de contato exterior. Nestes dias, invade-me uma sensação tão amarga, pesada, vazia… que, parafraseando Cioran, se eu não descrevesse o que habita em mim, certamente já teria colocado um fim à minha existência. É-me tão complexo viver dentro de mim que a única forma de existir, levar-me-ia para longe de mim, mas como não posso fazê-lo, obrigo-me a conviver comigo mesmo. Preciso morrer de viver e me pergunto se existe algum sentido em buscar explicações, dizia Cioran, algo que me transborda de significado.
Há uma pressão interior que me afasta da convivência humana e, uma vez longe, outra massacrante pressão me recorda da necessidade humana de viver socialmente, ter aspirações, esperanças e sonhos. Nutro uma obrigação interior de estar longe dos outros e de mim mesmo, noutro momento, tal obrigação me empurra para a vida social e para mim mesmo. É um pêndulo que se joga de um lado para o outro, nunca para e me lembra o tempo todo daquilo que quero esquecer. É uma pressão insuportável que dói, tira todo e qualquer sentido e esperança da vida.
Sinto que eu já atingi o limite da vida tendo passado por experiências as quais não pude sobreviver, mas me mantenho de pé por forças maiores como a minha covardia diante de mim mesmo. Um desgosto profundo me causa um sabor amargo em minha boca ao relembrar de todas as promessas de vida que me foram feitas, mas que se provaram vazias, cruéis e inalcançáveis. Da esperança surgiu a tortura, dos sonhos surgiu a frustração, dos desejos surgiu a dor, dor amor-próprio surgiu o desprezo, de mim mesmo surgiu o vazio melancólico, amargo e ácido que me corrói sem ressalvas.
É muito dolorido quando ninguém se importa a ponto de oferecer um ombro amigo e aqueles que até se importam, preferem manter distância do que ter que lidar com a minha complexidade a qual nem eu consigo domar. Eu sofro do excesso da intensidade e do desequilíbrio que se unem em uma explosão indomável, como dizia Cioran. Morro pouco a pouco por ser quem sou e por não ser quem sou, degrado-me, deterioro-me, definho. Forças incontroláveis fervem em mim, começo a morrer de solidão, desespero ou desamor, junto a todas as emoções que me cortejam sombriamente. Da mesma forma que Cioran, pergunto-me a respeito do que eu posso esperar deste mundo por sentir além da normalidade, da vida, da solidão, do desespero e da morte.
Talvez, uma das vantagens do ser humano, do mais feliz ao mais infeliz, é que o infeliz pode sofrer sozinho, pois a convivência seria inconcebível se o semblante humano exprimisse fielmente todo o sofrimento e suplício interior. Ninguém sobreviria, pois tristeza e felicidade exprimidas excessivamente, são nauseantes. Para terminar este calvário, Cioran afirma que a verdadeira solidão nos isola completamente entre céu e terra, pois neste espaço se revela todo o drama da finitude.