Intelectualidade é uma palavra que chama a atenção e, de certa forma, impressiona. Ser intelectual pode soar como um elogio, mas aqueles que realmente o são, não aceitam esse título facilmente visto que, quanto mais conhecimento (intelectualidade) se tem, menos se acredita que se sabe. Dessa forma, o título de intelectual, de forma verdadeira, somente poder ser lhe dado por terceiros, jamais por si mesmo. Autointitular-se intelectual é como gabar-se da alta inteligência com a qual se nasce, já que esta vem de natureza, não sendo algo adquirido com esforço. Assim, filosoficamente falando, não é correto se gabar daquilo que a natureza nos deu, como não é um verdadeiro intelectual aquele que assim se autointitula.
Como um guia à intelectualidade, o livro ‘A vida intelectual’, publicado em 1921, por Antonin Sertillanges, filósofo católico francês, nascido em 1863, tem o objetivo de transmutar uma mente comum à vida intelectual. Dividido em vários capítulos, a obra nos leva da vocação intelectual, ponto de partida, passando pelas virtudes de um intelectual cristão, organização da vida, tempo, campo e preparação do trabalho chegando à importância de ser intelectual, mas manter uma vida equilibrada com descontrações, gozos e alegrias. A obra muitas referências a São Tomás de Aquino, monge dominicano que escreveu sobre os conflitos entre fé e razão existentes no período de sua vida, que se iniciou em 1225.
De certa forma, o livro também é uma crítica à miséria do pensamento humano, aspecto que domina o mundo atual que está envolto no culto a futilidades e superficialidades, época em que poucas pessoas buscam um conhecimento verdadeiramente profundo. […] uma vocação não se satisfaz com vagas leituras e pequenos trabalhos dispersos. Exige penetração e continuidade, um esforço metódico […] requer uma dedicação de que poucos são capazes… prevê privações, longos treinamentos e uma tenacidade, às vezes, sobre-humana. É preciso doar-se de todo o coração. O autor faz muitas referencias a Deus, tendo-o como guia de vida, tanto pessoal como intelectual. Isso, de forma alguma, impede aqueles que não creem no deus católico de extrair muito conhecimento da obra.
Conforme explica Sertillanges, é necessária muita organização, dedicação e querer para se tornar um intelectual. Concomitantemente, ele critica a sociedade que desperdiça miseravelmente seus dias, suas forças, sua seiva intelectual, seu ideal; nada preveem, nada realizam. A questão de desperdício de tempo é, mais uma vez, comum neste mundo afogado nas mídias sociais que rola o feeds infinitos matando os poucos neurônios que ainda restam. Segundo o autor, não é preciso faculdades extraordinárias para realizar uma obra; basta uma simples superioridade, o resto é dado pela energia por sua judiciosa aplicação. Questão esta percebida por poucos, visto que imersos em seus mundos alegóricos, são sustentados por pão e circo.
Detalhadamente, a obra fornece uma miríade de dicas àqueles que buscam a intelectualidade tais como reduzir sua vida social, recepções, saídas que implicam em novos compromissos, cerimônias com vizinhos, ir em busca do silêncio, livrar-se das distrações de toda ordem… Atualmente, acrescentam-se a televisão e as mídias sociais, as quais roubam um tempo precioso e nada ou muito pouco contribuem com o intelecto. Sobretudo, grifo meu ao silêncio, o qual permite grandes criações e sem o qual nos esquecemos de nós mesmos e nos desviamos de nosso caminho. […] eu acrescentaria para a alma o banho do silêncio, a fim de tonificar o organismo espiritual, de acentuar a sua personalidade e dar-lhe o sentimento ativo dela. […] ‘A solidão é a pátria dos fortes, o silêncio é a sua oração.’ – Gustave-François-Xavier de La Croix de Ravignan.
Uma das dicas mais interessantes para o mundo moderno, principalmente, é ler pouco, segundo Sertillanges. Isso se deve ao fato de que, pressionados pela velocidade e necessidade de mostrar que se lê vários livros ao ano, acaba-se por se desviar do caminho dos livros que realmente importam na busca pela intelectualidade. Dessas leituras, muitas vezes, acabamos lendo somente para dizer que lemos sem realmente aprendermos algo ou encontrar uma aplicação prática em nosso dia a dia. […] a leitura é o meio universal de aprender, e é a preparação imediata ou distante de toda produção […]. A redução deve recair sobretudo sobre as leituras menos substanciais e menos sérias. Ainda, ele nos recomenda que amemos os livros eternos, pois eles dizem as verdades eternas. Isso quer dizer que devemos ler aqueles livros atemporais que realmente contribuem com a nossa intelectualidade.
Aos escritores ou aspirantes à escrita, Sertillanges, entre outras recomendações, diz que em tudo é preciso começar e, na escrita, não ter pressa. O começo é mais que a metade do todo, citando Aristóteles. […] o estilo, e o trabalho criador em geral, exigem desapego. A personalidade inoportuna deve ser afastada; o mundo, esquecido. […] Ademais, não podemos nos apegar ao que os outros dirão sobre a nossa escrita, pois buscar a aprovação pública é negar ao público uma força com que ele contava. Sertillanges acrescenta que o pensamento não será uma obra sua se a preocupação em agradar e adaptar-se escravizar sua pena (caneta).
Por fim, há muito mais o que escrever a respeito desta obra atemporal, porém, no momento, recomendo-a a todos aqueles que buscam a intelectualidade, principalmente aos colegas escritores, jornalistas e amantes da escrita, em geral. Ela os ensinará a alma da preparação, ação e prática desse ofício milenar e essencial ao mundo que é a escrita. Deixo com você tudo mais aquilo que a obra em questão pode lhe ensinar, visto que meu objetivo com este pequeno texto é instigá-lo à leitura desta obra preciosa.