As palavras não existem e as pessoas não se atrevem

“O vazio que a genialidade produz a nossa volta é um bom lugar para acendermos nossa pequena luz.” – Franz Kafka

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Repetidamente, sinto um vazio tão profundo que inexistem palavras capazes de dar um significado plausível a essa condição. Asseguro que não há exageros naquilo que procuro expressar, mas sei que há um abismo entre aquilo que externo e aquilo que eu gostaria de externar. É como se eu caísse de um desfiladeiro atingindo estalactites invertidas que me catapultam ao ar, novamente, sem eu nunca chegar realmente ao chão. É um eterno ricochetear. Estou entre o céu e a terra, não sinto o chão sob meus pés, tampouco percebo o céu sobre minha cabeça.

Tal profundidade causa-me um retraimento entre aquilo que sou e aquilo que as pessoas estão dispostas a entender. Confesso que tenho dissemelhantes medos de tentar me fazer claro aos ouvidos de alguém, por mais que essa pessoa diga que me entenderia. É como se eu fosse o inseto repugnante descrito por Franz Kafka, em A Metamorfose. Eu não sou aquilo que pareço ser, contudo não consigo explicar quem sou, na realidade. Sou um paradoxo em meio ao que eu quero que os outros entendam, e em meio a que eu busco, incessantemente, esconder do mundo. Ninguém sobreviveria a quem eu realmente sou.

Dito de outra forma, até a presente ocasião, ninguém esteve disposto a me ouvir, ou melhor, talvez, ouvir, sim; mas buscar formas de me entender, não. Não julgo aqui tal fato, mas registro que a minha complexidade não provê capacidade suficiente de compreender a mim mesmo. Dessa forma, o que quero dizer é que, como dizem por aí, o mundo não está preparado para ter essa conversa. Possivelmente, nem eu mesmo esteja. Sinceramente, não acredito que nem um profissional do ramo da psicologia conseguiria me explicar a mim mesmo, pois as palavras para me descrever ainda não estão no dicionário e tal diagnóstico nunca fora registrado.

Tudo o que entendo a respeito de mim mesmo, já me assustou muito mais do que eu poderia contar a alguém. Com a maturidade, a compreensão sobre a minha obscuridade me trouxe certo conforto em aceitar aquilo que desconheço e fazer as pazes com aquilo que sou. Coincidentemente, minha necessidade de compreensão alheia se escasseou, meu mundo se contraiu e se expandiu para mim próprio e para terceiros. Revelo que ainda sofro, mesmo que veladamente, pela incompreensão que o mundo tem sobre mim e, aqueles com quem eu acreditava poder contar, olham-me com desconfiança e certo menosprezo cogitando as mais variadas hipóteses sobre a minha estranheza, evitando conversas.

Desesperadamente, ao longo dos anos, arrastei a pesada pretensão de me encaixar em algum grupo social, ou pelo menos, em um grupo que a sociedade aceita. No entanto, cada ano que passa, tem me mostrado que a minha caminhada é solitária e que não há maneiras de fugir daquilo que nascemos para ser. É uma sensação de impotência diante daquilo que, imerso em ilusões, acreditei um dia, poder controlar.  Essa incongruência sob a qual vivo meus dias, é como um martelo que bate até afundar o prego em uma tábua ou entortá-lo, ou seja, não há como permanecer ileso. Disforme ou enterrado, eis as opções.

Não sei mais se quero que alguém me acolha diante de tanta singularidade, pois confesso que, em situações ditas normais, certamente, eu buscaria me afastar de alguém tão complexo. A grande verdade é que julgamos e desprezamos aquilo que não conseguimos entender, sejam comportamentos ou formas de viver. Diante disso, também fingimos que tudo está conforme o esperado, pois não sabemos lidar com a escuridão alheia. Ela nos incomoda, assim, é preferível se fechar, viver sua própria vida, fingindo normalidade. Aquilo que os olhos não veem, o coração não sente, diz o dito popular.

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