É interessante perceber, quando se chega a certa altura da vida, que talvez a não realização de alguns sonhos de infância e adolescência tenha sido uma espécie de livramento. Aquilo que tanto desejávamos poderia ter se tornado uma vida pesada, cercada de exigências e responsabilidades que, anos depois, descobriríamos difíceis de sustentar. Nem sempre conhecemos o peso do que desejamos.
A uma semana de completar trinta e oito anos, e dois anos depois de receber meu diagnóstico de autismo, tenho olhado para um desses sonhos com outros olhos.
Eu queria ser correspondente internacional de televisão. Esse desejo nasceu ainda na antiga sétima série e era tão vívido que eu conseguia me imaginar exercendo a profissão. Mesmo diante das dificuldades que hoje compreendo melhor à luz do diagnóstico, persisti.
Concluí minha graduação em Jornalismo em 2021, mas, ainda no quinto semestre, havia começado a sentir uma profunda frustração com a distância entre o sonho e a realidade da profissão que se revelava diante dos meus olhos. A experiência concreta trazia aspectos que não apareciam na imagem que eu havia construído desde a adolescência.
Minha curta passagem pela área me fez muito feliz, mesmo longe do grande sonho. Nesse percurso, porém, fui percebendo quanto o contato constante com as pessoas me exauria. Eventos, entrevistas, ruídos de toda ordem e tantos estímulos simultâneos me alertavam para a possibilidade de que a carreira dos meus sonhos também pudesse se tornar uma fonte de sofrimento.
Ainda persisti por algum tempo. Aos poucos, contudo, a docência, minha primeira formação e uma profissão que já fazia parte da minha vida, falou mais alto. As aulas particulares me permitiram trabalhar em casa e organizar uma rotina mais compatível com minhas necessidades, longe de boa parte do caos que me esgotava. Além disso, passaram a garantir as condições financeiras para realizar um desejo ainda maior: viajar pelo mundo.
Explorar culturas, conhecer paisagens e construir memórias em lugares distantes é profundamente recompensador. Nessas experiências, reconheço muito do que me atraía na ideia de ser correspondente: estar em outros países, observar diferentes modos de vida e comunicar aquilo que descubro.
Há, evidentemente, uma diferença entre viajar por escolha própria e trabalhar a serviço de uma emissora. Hoje, posso escolher meus destinos, respeitar meu ritmo e decidir o que desejo compartilhar. A escrita me oferece um caminho para transformar essas experiências em comunicação e dar continuidade ao desejo que existia naquele sonho.
Meu livro VIXI Códigos de Praga é uma das expressões mais significativas disso. A obra carrega parte dos meus sonhos realizados e tem como protagonista um jornalista bem-sucedido. Por meio dele, experimento, na ficção, algo da vida que imaginei para mim. É como se eu pudesse me aproximar daquele adolescente e lhe oferecer algumas páginas do futuro que ele tanto desejava.
Sei que escrever essa história não equivale a ter sido correspondente internacional. Ainda assim, existe ali uma sensação de conquista. Reconheço no personagem algo de quem fui, de quem sou e de quem um dia pensei que seria.
Com o tempo, tenho conseguido compreender melhor esse percurso. O diagnóstico também me ajudou a revisitar experiências e reconhecer necessidades que, durante muitos anos, eu não sabia nomear. Hoje, entendo melhor por que algumas situações me custavam tanto, mesmo quando estavam ligadas a algo que eu desejava profundamente.
Por isso, já não consigo chamar essa mudança apenas de desistência. Houve frustração e houve uma carreira deixada para trás, mas também houve descoberta. Ao me afastar de uma possibilidade de vida, fui encontrando outras formas de viver aquilo que me movia.
Não sei se gosto tanto da palavra, hoje tão repetida, mas talvez seja mesmo isso: pude ressignificar aquele sonho. Entendi que o desejo de conhecer o mundo e contar histórias podia encontrar espaço na vida que eu já estava construindo.
Próximo do meu aniversário, sinto que algo essencial daquele sonho se realizou. De uma maneira diferente da que eu previa, mais compatível com minhas necessidades e com a liberdade de escolher como desejo estar no mundo.
Sou um autista que busca distância do excesso de estímulos e que, ao mesmo tempo, se lança a grandes aventuras em busca de descobertas. Há em mim a necessidade de recolhimento e a curiosidade pelo que existe além do horizonte. Tenho aprendido a abrir espaço para ambas.
O adolescente que sonhava em ser correspondente talvez não imaginasse este caminho. Hoje, entre viagens, aulas e páginas escritas, reconheço o que permaneceu daquele desejo. Ainda quero conhecer o mundo e contar o que encontro nele — inclusive as partes de mim que só consigo descobrir quando saio de casa.