Para entender o mundo, dele precisei me afastar. Para entender as pessoas, delas precisei me distanciar. Para entender a mim, de mim, precisei me aproximar. Para entender aquilo que o mundo me deu, em mim, precisei me isolar. Para entender a minha existência, no conhecimento, eu precisei mergulhar. Para resolver as minhas inquietações, no mundo busquei a verdade, mas somente a encontrei dentro de mim. A mim, precisei esculpir, da mesma forma como um escultor, pacientemente, martela uma pedra a fim de criar a sua arte.
Dentro de mim, encontrei os mais assustadores monstros com os quais lido diuturnamente. A alguns deles, obriguei-me a dispender um pouco de minha cordialidade já que são tão imensos que me aniquilariam caso eu decidisse lutar contra eles. A outros, obriguei-me a mostrar a minha força, que se originou das mais variadas adversidades pelas quais passei, conseguindo derrotá-los. Muitos deles, eu ainda desconheço, mas tenho a convicção de que, cedo ou tarde, rebelar-se-ão contra mim. Terei capacidade para domá-los? Não sei, mas acredito que não poderão me ferir tão profundamente como outrora o faziam.
Existem tantos acontecidos dentro que mim que, se eu pudesse torná-los tangíveis, seria como erguer uma Coluna de Trajano em minha frente contendo milhares de desenhos representando as mais variadas passagens, nos mais variados formatos, com os mais profundos sentimentos de dor, melancolia, tristeza, indiferença, abandono, inquietação, indecisão, medo, obscuridade e incompreensão. Para tornar todos esses aspectos rancorosos da minha alma mais digeríveis, eu poderia acrescentar alguns contornos de alegria, felicidade e exaltação.
Em que direção sigo, sinceramente nem eu sei, nem faço muita questão de saber. Pois se há algo que aprendi na minha instável existência é que todos os planos que arquitetamos no início de nossa vida adulta, são apenas um esboço do que a vida nos reserva, visto que é ela que nos envia na direção que deseja, a seu bel-prazer. Controle sobre o que somos ou seremos, pouco temos. Aliás, se existe uma palavra para descrever o desenrolar da vida, ele seria descontrole. Iludidos são aqueles que acreditam que possuem algum senso de direção, talvez até o tenham, não obstante, como dizem, a vida não está nem aí para quem você é, muito menos para os planos que você tem.
No dia em que eu nasci, minha alma foi tingida de um cinza esfumado que, ao longo dos meus anos, tem oscilado entre a cor original inata da minha alma à cor negra, no tom mais obscuro em que se pode apresentar. Os tons de cinza sob os quais vivo são semelhantes à minha indiferença às relações humanas, as quais, normalmente apresentam o vermelho do sangue. Há tempos abracei o fato de que a minha vida oscila entre o cinza e o negro, entre a melancolia predominante e os efêmeros momentos de algo que se assemelha ao que se acredita ser a tão sonhada felicidade.
Tal consciência demasiadamente profunda sobre a existência humana, sobretudo a minha própria, permite analisar com profundidade e por ali mesmo viver. Eu sou incapaz de um existir raso, sou assustadoramente profundo e obscuro à maioria das pessoas cujas opiniões sobre alguém como eu, são muito nefastas. Sendo um grande conhecedor da minha bruma, por muitas vezes, consigo sair da ilha para ver a ilha, pois assim sou capaz de ver a mim mesmo como um terceiro, como dizia José Saramago. Observar quem sou me intriga demasiadamente, pois o labirinto que existe em mim, desencontraria qualquer um que se atrevesse a me explorar.
Pense em mim como um remédio de tarja preta que é altamente restrito por ser igualmente nocivo. Ninguém sai imune de mim. As pessoas se espantam com a minha profundidade, melancolia, autenticidade, sinceridade, indiferença, inquietação, escuridão, tristeza, impaciência… Acredite, ser quem eu sou não é nada incomplexo, nada superficial. Ser quem eu sou demanda uma certa dose de frieza, melancolia e indiferença, pois como dizia Edgar Allan Poe, tudo o que eu amei, amei só e isso teve consequências irreparáveis.
Seria ainda possível considerar alguém como eu feliz? Acredito que sim, pois a felicidade não existe, o que existe são momentos de felicidade e esses eu também os tenho, mesmo que raros. Os meus momentos felizes estão sempre envoltos em um manto de melancolia banhados em um cinza esfumado de um dia nublado em um horizonte distante, o qual, os olhares de poucas pessoas alcançam. Àqueles que ainda não se convenceram, asseguro que sim, que há alegria na melancolia. Há prazer na melancolia. Há satisfação na melancolia. Há gozo na melancolia. Há amor na melancolia. Há planos na melancolia. Há beleza na melancolia. Enfim, há vida na melancolia.