Como poucos, vive o fim de semana isoladamente tomado por um grande sentimento de desimportância em relação a sua existência enclausurado entre quatro paredes como se não existisse para o mundo, muito menos para as pessoas. Sente-se absurdamente paradoxal, pois ao mesmo tempo que almeja a companhia de alguém, rejeita-a. Não consegue entender o que há dentro de si, muito menos explicar, pois é um emaranhado de inquietação e questionamentos.
Acha-se tão inconveniente neste mundo e tem algo dentro de si que o faz acreditar que jamais irá compreender a razão do seu eu ser como é, repleto de contradições, sonhos, medos e dúvidas. É como se existissem dois dentro de si. Um deles quer passar um tempo com alguém, ter um passatempo, jogar conversa fora e sair da rotina, como alguém que tem uma vida dita normal costuma fazer. O outro é introspectivo, solitário, misantropo, inquieto, incomodado e evita qualquer contato humano. Curiosamente, este último sempre vence sem muito esforço.
Sente que está sempre à espera de algo que não se lhe faz claro. No fim de semana, espera pela semana; durante a semana, espera pelo fim de semana. É como se estivesse preso em um mundo de repetição que se reforça pelo fato de fazer sempre o mesmo durante os dias úteis e, nos fins de semanas, o anterior parece se repetir. Em certos momentos, a impressão que tem é de que tudo, neste mundo, já se acabou para ele e que ansiosamente aguarda a sua morte. Sente que somente ela o arrancará desse círculo vicioso.
Seus dias soam intermináveis, como se o domingo tivesse infinitas horas e todas elas devem ser preenchidas para evitar um sentimento de culpa de que deveria estar fazendo algo produtivo. O filósofo Seneca dizia que o maior impedimento para viver é a espera e que na expectativa do amanhã, perde-se o hoje. Esse parece um pensamento bem apropriado ao caos em que se encontra. Anseia pelo amanhã, mas nele sente falta do ontem. Parece-lhe que não lhe é permitido viver no presente.
Perambula de um lado para o outro dentro de sua própria casa sem encontrar o que busca, mas, na verdade, nem sabe exatamente o que busca. Em seu âmago, um sentimento de condenação à solidão pelo resto de sua existência. É como se estivesse carregando a solidão do mundo, sem poder dividir o fardo com ninguém e, mesmo que tal possibilidade lhe fora dada, sentia-se como Kafka que passara a sua vida tentando comunicar o incomunicável; sem encontrar palavras para descrever o buraco negro que ele mesmo é, capaz de arrastar qualquer um para a sua escuridão.
Sua melancolia é capaz de impregnar o ambiente e infestar os corações daqueles que dele se aproximam, fazendo-lhes se perguntar como alguém pode ser tão taciturno. Outros iriam além, perguntando-se o que se passara em sua vida que o transformara no possuidor do silêncio, do olhar distante e da solidão. Infelizmente, as respostas, caso pudessem ser ditas, soariam repugnantes. Assim, para a conveniência do mundo, é profundamente mais correto que tais respostas permaneçam silenciadas.
“A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.” – Thomas Mann (A Morte em Veneza).